Na terça-feira (28), o senador Cleitinho Azevedo publicou nas redes sociais um vídeo produzido com inteligência artificial em que versões digitalmente recriadas do pai e do irmão, ambos falecidos, apareciam incentivando-o a seguir em frente. O irmão havia morrido dez dias antes. O caso virou notícia pelo contexto político, mas escancarou outra coisa: a tecnologia de recriar mortos saiu do laboratório e chegou ao celular de qualquer pessoa.
Não é um episódio isolado. É um mercado com nome, produtos e, agora, literatura científica preocupada.
Deadbots, griefbots: o que são exatamente
São réplicas digitais de pessoas falecidas. As mais simples reproduzem voz e imagem em um vídeo. As mais sofisticadas são chatbots treinados com o rastro que a pessoa deixou — mensagens, e-mails, áudios, publicações em redes sociais, vídeos caseiros — capazes de responder perguntas e imitar o jeito de falar, os cacoetes, o humor.
Empresas de vários países já vendem o serviço. O usuário envia o material, o sistema processa, e o resultado é um interlocutor que soa como alguém que morreu. Há relatos de famílias que conversam diariamente com o avatar, inclusive simulando ligações de rotina.
A promessa comercial é sempre a mesma: consolo. A pergunta que a pesquisa faz é se é isso que acontece.
O alerta de Cambridge: o risco de ser “assombrado”
Em maio de 2024, os pesquisadores Tomasz Hollanek e Katarzyna Nowaczyk-Basińska, do Leverhulme Centre for the Future of Intelligence, da Universidade de Cambridge, publicaram na revista Philosophy & Technology um dos estudos mais citados sobre o tema. O argumento central é incômodo: esses sistemas criam a ilusão de que a pessoa morta continua viva e interagindo com o mundo, como se a morte não tivesse acontecido.
Os autores descrevem cenários em que a coisa desanda. Empresas que usam a semelhança do falecido para empurrar publicidade a familiares — algo que eles comparam a ser perseguido por um morto. Serviços que continuam ativos depois que a família já não quer mais aquilo. Usuários sem nenhuma forma prevista de encerrar a relação com o avatar sem que o desligamento pareça uma segunda morte.
A recomendação dos pesquisadores não é proibir, e sim projetar direito: protocolos que impeçam usos desrespeitosos, restrições ao uso comercial da imagem do falecido e, sobretudo, mecanismos de saída que ofereçam algum encerramento emocional a quem decidir parar.
Há um problema de consentimento que nenhuma dessas soluções resolve por completo, e os autores são diretos sobre ele: por definição, a pessoa recriada está morta. Ela não pode autorizar nem revogar nada.
E o luto, como fica?
Aqui é preciso honestidade metodológica: não existe ainda um corpo robusto de ensaios clínicos sobre o efeito de griefbots em pessoas enlutadas. O que existe é análise ética, estudos de caso e revisões publicadas em periódicos como Ethics and Information Technology, que levantam uma hipótese consistente.
A hipótese é a seguinte. O avatar tende a produzir uma versão idealizada de quem morreu — mais paciente, mais afetuosa, mais disponível do que a pessoa real jamais foi, porque o sistema aprende com o material selecionado e é otimizado para agradar. Conviver com essa versão pode manter aberta uma porta que, para a maioria das pessoas, precisa se fechar em algum ritmo.
É o oposto do que a clínica costuma observar sobre o trabalho do luto. Elaborar uma perda passa por aceitar a ausência, o que inclui aceitar a pessoa inteira que se foi — com os defeitos, as brigas mal resolvidas, o que não foi dito. Um interlocutor artificial que só devolve conforto pode adiar exatamente esse encontro. Quem quiser aprofundar essa leitura encontra em portais de psicanálise, como o PsicoCast, discussões sobre o que a escuta clínica faz com a perda — e por que a ausência precisa ser vivida, e não contornada.
Isso não significa que todo uso seja nocivo. Ouvir uma vez a voz de quem morreu é diferente de conversar todo dia com um simulacro. O padrão de uso importa mais do que a tecnologia.
O buraco jurídico brasileiro
No Brasil, quem procurar a lei encontrará pouca coisa. Juristas apontam que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) protege a pessoa natural — e, portanto, não alcança de forma direta os dados de quem já morreu. Não há legislação específica sobre herança digital: o tema é tratado por analogia, com princípios do Código Civil e do direito sucessório.
A discussão jurídica avançou nos últimos anos e já inclui propostas concretas, como a de registrar em testamento cláusula que proíba o uso da própria voz e imagem por inteligência artificial depois da morte. Enquanto isso não vira regra, a proteção prática é bem mais simples: conversar sobre o assunto em família, em vida.
Se for usar, use com critério
Algumas balizas razoáveis, sustentadas pelo que a literatura discute até aqui:
- Pergunte-se para que serve. Guardar um vídeo é memória. Conversar diariamente com um avatar é outra coisa, e merece atenção.
- Considere o que a pessoa gostaria. Ela autorizaria a própria imagem falando frases que nunca disse?
- Cuidado redobrado com crianças e adolescentes, que têm menos recursos para distinguir representação de presença.
- Verifique como se desliga o serviço antes de contratar — e quem tem poder para fazê-lo.
- Nunca use a imagem de um morto para vender, convencer ou disputar — publicitária ou politicamente. É o cenário que os pesquisadores de Cambridge classificam como o mais problemático.
E se o luto estiver travado, com sofrimento intenso e persistente que atrapalhe o funcionamento cotidiano, o caminho é profissional de saúde mental, não software. Nenhum modelo de linguagem, por mais convincente, foi treinado para segurar a mão de alguém.