Durante alguns anos, a discussão sobre crianças, adolescentes e telas ficou presa numa etapa: convencer a escola de que o assunto era problema dela. Essa etapa acabou. Os dados da pesquisa TIC Educação 2025 mostram que o debate entrou na rotina da imensa maioria das instituições brasileiras, e num ritmo raro para qualquer indicador educacional.
O impacto do uso de telas na saúde mental dos alunos já é discutido em 80% das escolas do país. Um ano antes, eram 62%. São 18 pontos percentuais de salto em doze meses.
De onde vêm os números
A pesquisa é feita pelo Cetic.br, o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, que integra o NIC.br e responde ao Comitê Gestor da Internet no Brasil. Esta é a 16ª edição, uma série que começou em 2010 e por isso permite comparar ano a ano em vez de fotografar um momento isolado.
A amostra tem 2.404 escolas, públicas municipais, estaduais e federais e também privadas, em áreas urbanas e rurais de todas as regiões. A coleta foi feita entre agosto de 2025 e abril de 2026. É a base mais sólida que existe hoje no Brasil para falar de tecnologia dentro da escola sem depender de impressão.
O que as escolas estão fazendo, na prática
O crescimento não ficou só no discurso. Ele apareceu em ações concretas, e quase todas com alta de dois dígitos em relação a 2024:
- 86% dos gestores conversaram com os professores sobre o impacto das tecnologias na saúde mental dos alunos, contra 68% no ano anterior.
- 75% se reuniram com as famílias para tratar do tema, contra 60%.
- 75% discutiram o uso seguro, crítico e responsável das tecnologias, contra 56%.
- 67% debateram a inclusão da educação midiática no currículo, contra 46%.
- 48% ofereceram palestras com especialistas em bem-estar e saúde mental para as famílias.
- 46% distribuíram guias e materiais sobre hábitos saudáveis de uso.
Há ainda um dado que inverte a direção habitual: em 49% das escolas, foram os próprios responsáveis que procuraram a instituição pedindo orientação sobre como mediar o consumo digital dos filhos. Não foi a escola que puxou o assunto. Foi a família que bateu na porta.
O celular: metade proíbe, e a idade decide
A política de aparelhos pessoais é o ponto em que a pesquisa mostra mais divisão. Pouco mais da metade das escolas, 51%, afirma que o aluno não pode levar o celular pessoal para o ambiente escolar. Outros 40% permitem a entrada, mas com regra de guarda durante as aulas.
A idade é a variável que mais pesa. Nas escolas com turmas dos anos iniciais, a restrição chega a 69%. No ensino médio, cai para 31%. Faz sentido: quanto mais velho o estudante, mais o aparelho deixa de ser só distração e passa a ser agenda, transporte, trabalho e contato com a família.
Entre as escolas que permitem o celular, 66% autorizam o uso pedagógico dele em sala. Esse número sobe nas regiões Norte (76%) e Nordeste (76%) e nas áreas rurais (75%), o que sugere um ponto pouco lembrado no debate: em muitos lugares, o celular do aluno é o dispositivo conectado disponível, e proibi-lo sem oferecer alternativa significa tirar acesso de quem já tem menos.
A inteligência artificial entrou pela sala dos professores
Pela primeira vez a pesquisa mediu o uso de IA generativa por gestores escolares, e o resultado contraria a narrativa de que a tecnologia chega sempre pelos alunos.
Entre os gestores, 53% já usam essas ferramentas em atividades de gestão pedagógica, administrativa ou financeira. Os usos mais comuns são criação de conteúdos visuais e comunicação (83%), elaboração de convites e comunicados (80%) e tradução, revisão ou resumo de textos (71%).
Do lado dos estudantes, o uso é autorizado em atividades educacionais por 37% das escolas, com variação por rede: 47% na rede estadual e 52% nas instituições com turmas até o ensino médio.
O dado que importa é o último: apenas 22% das escolas possuem algum guia ou orientação escrita sobre uso de IA. São 19% nas municipais, 25% nas estaduais e 25% nas particulares. Ou seja, a ferramenta já está dentro da escola, na mão de metade dos gestores, e a regra sobre ela ainda não foi escrita em quase oito de cada dez instituições.
O gargalo mudou de lugar
Este é o achado mais útil da pesquisa para quem trabalha com saúde mental e tecnologia. Falar do problema deixou de ser o obstáculo. O obstáculo agora é operacional.
Entre as escolas que desenvolvem ações de educação digital e cidadania digital, 75% dos gestores apontam a baixa participação das famílias como o principal empecilho, e 64% citam a falta de materiais e recursos educacionais.
Entre as que não desenvolvem essas ações, o desenho é ainda mais claro: 77% culpam a falta de materiais, 66% a baixa participação familiar e 65% a qualidade insuficiente dos computadores e do acesso à internet.
Leia essas duas listas juntas e o retrato aparece. A escola quer fazer, sabe que precisa fazer, chamou a família para conversar, e esbarra em duas coisas que não dependem só dela: material de qualidade e alguém do outro lado disposto a aparecer.
O que isso significa para quem tem filho em casa
Três leituras práticas se sustentam nos dados.
A escola provavelmente já está fazendo algo, e você pode não ter percebido. Se 86% dos gestores conversaram com professores e 75% com famílias, a chance de existir uma iniciativa na escola do seu filho é alta. Perguntar qual é a política de celular e se há material sobre uso saudável custa um e-mail.
A ausência da família é o gargalo declarado. Não é um detalhe: é o obstáculo número um citado pelas escolas que já se mexeram. A reunião que parece burocrática é, nos dados, a peça que está faltando.
Sobre IA, a regra ainda está sendo escrita. Com só 22% das escolas tendo guia formal, o combinado sobre o que pode e o que não pode em trabalho escolar costuma ser informal. Perguntar qual é a orientação evita conflito depois, e ajuda a escola a perceber que existe demanda por essa definição.
Um ponto final de honestidade: nenhum desses números diz que proibir o celular melhora a saúde mental, nem que discutir o tema resolve o problema. A TIC Educação mede o que as escolas fazem e pensam, não o efeito clínico dessas escolhas. O que ela mostra, e isso já é bastante, é que o Brasil parou de discutir se o assunto existe e começou a discutir o que fazer com ele.