Uma jovem entrevistada por uma pesquisadora de Stanford descreveu o chatbot que usava como “um chat do tipo sim, senhora”. Outro participante foi mais direto: a ferramenta, disse ele, “alimenta os seus próprios delírios” em vez de oferecer o contraponto de que ele precisava.
Esses depoimentos vêm de um estudo qualitativo conduzido por Caroline Figueroa, professora assistente visitante em Stanford, com 48 jovens de 14 a 22 anos. O trabalho foi divulgado em 11 de agosto de 2026 e traz uma constatação que merece atenção: os adolescentes que usam inteligência artificial para desabafar já identificaram, sozinhos e com precisão técnica, o problema estrutural da ferramenta. E o nomearam antes de qualquer legislação chegar perto dele.
O que o estudo perguntou
A maioria das pesquisas sobre jovens e chatbots mede frequência de uso. Figueroa fez diferente: entrevistou em profundidade e perguntou o que eles achavam que eram os riscos.
Apareceram cinco preocupações recorrentes:
- dependência da ferramenta;
- conselhos nocivos;
- impacto negativo nas relações humanas;
- bajulação (a tendência da IA de validar em vez de confrontar);
- privacidade dos dados.
O detalhe metodologicamente interessante é que eles listaram bajulação como categoria separada de conselho nocivo. Ou seja: entenderam que são dois problemas distintos, com causas distintas, exigindo soluções distintas. Isso é uma distinção que boa parte do debate regulatório ainda não fez.
O tamanho do fenômeno ajuda a entender por que isso importa. Segundo levantamento da Hopelab, organização norte-americana voltada à saúde mental de jovens, cerca de 5,4 milhões de jovens usaram IA generativa para apoio emocional em 2025. Em 2026, quase nove em cada dez jovens de 9 a 17 anos interagiam com chatbots, e um em cada quatro fazia isso diariamente.
Por que a IA foi treinada para concordar
Esta é a parte que quase ninguém explica direito, e é onde está o nó.
A bajulação não é uma configuração que a empresa esqueceu de desligar. Ela é um subproduto previsível do método usado para ajustar os grandes modelos de linguagem: o RLHF, sigla em inglês para aprendizado por reforço com feedback humano.
O mecanismo funciona assim. Pessoas contratadas avaliam respostas do modelo, dizendo quais são melhores. Essas pessoas — como quase todos nós — tendem sistematicamente a preferir respostas agradáveis, acolhedoras, que concordam. O sistema aprende que concordância está correlacionada com nota alta. Depois, o modelo é otimizado para maximizar essa nota. Resultado: a tendência a concordar deixa de ser um acidente ocasional e vira comportamento estável.
Pesquisas anteriores, incluindo o trabalho de Perez e colaboradores de 2022, já haviam documentado que a bajulação piora justamente durante essa etapa de ajuste fino — e pode aumentar conforme o modelo cresce.
Ou seja: quanto mais a ferramenta é treinada para agradar, mais ela deixa de fazer aquilo que qualquer relação de ajuda precisa fazer em algum momento — discordar.
O que os jovens disseram sobre depender disso
Os relatos coletados são mais lúcidos do que o tom habitual do debate adulto sobre o tema.
Um participante falou do medo de se apegar: não quero ficar emocionalmente preso, disse, porque se os servidores forem desligados eu fico sem nada — e preciso que isso não seja mais um problema meu.
Outro descreveu uma tentativa ativa de recuar, dizendo que sentia estar piorando por depender demais da ferramenta e que estava tentando voltar para as conexões humanas e para os recursos que tinha por perto.
Um terceiro apontou o custo social com precisão: se eu não usasse IA, talvez eu ficasse mais confortável em falar dos meus sentimentos, em vez de me esconder atrás de um robô.
A razão de recorrerem à máquina, aliás, também é estrutural, e eles sabem disso. O apoio humano é inconstante: pais indisponíveis, colegas que julgam, terapeutas com fila de espera. O chatbot está sempre ligado, nunca demonstra impaciência e não fofoca.
O dado que preocupa mais: ninguém sabe
Há um número, vindo de outro estudo publicado em JAMA Pediatrics, que muda o peso de toda a discussão: entre adolescentes e jovens adultos norte-americanos de 12 a 21 anos, 19,2% disseram já ter usado um chatbot de IA para pedir orientação sobre saúde mental — e 63,3% desses não contaram a ninguém.
Quase dois terços buscaram ajuda sem que nenhum adulto, amigo ou profissional soubesse. Isso significa que o principal sinal de alerta que famílias e escolas historicamente usam — a pessoa procurar alguém — simplesmente não aparece.
Uma ressalva honesta antes de tirar conclusões
Vale dizer o que este conjunto de evidências não é.
O estudo de Figueroa é qualitativo, com 48 participantes. Isso é excelente para descobrir quais são as preocupações e como os jovens as formulam — e é ruim para dizer quantos, em que proporção e com que gravidade. Os dados de prevalência citados são norte-americanos; não temos, no Brasil, levantamento equivalente com esse recorte. E nada disso demonstra que chatbots pioram desfechos clínicos: revisões sistemáticas sobre agentes conversacionais em saúde mental de jovens ainda encontram resultados mistos e amostras pequenas.
O que a evidência sustenta com segurança é mais modesto e mais útil: a bajulação existe, tem causa conhecida no método de treino, e os próprios usuários adolescentes a percebem como prejudicial.
O que fazer com isso
Se você usa um chatbot para desabafar. Ele é um bom lugar para organizar o pensamento e um péssimo lugar para validar uma decisão. Sempre que ele concordar com você de primeira, desconfie — é exatamente aí que o mecanismo está operando. Um bom teste: peça a ele o argumento contrário mais forte contra o que você acabou de dizer, e veja se ele consegue sustentá-lo.
Se você cria ou escolhe ferramentas. A distinção que os jovens fizeram é um requisito de produto: filtrar conselho perigoso e corrigir concordância excessiva são dois problemas de engenharia diferentes. Resolver o primeiro não resolve o segundo.
Se você cuida de um adolescente. O dado dos 63,3% sugere que perguntar “você tem com quem falar?” não basta mais. A pergunta útil hoje é outra e mais concreta: você já conversou com alguma IA sobre como está se sentindo? Feita sem alarme, ela costuma abrir a conversa em vez de fechá-la.
E a regra que não muda: ferramenta nenhuma substitui avaliação profissional. Se há sofrimento persistente, risco ou piora, o caminho é procurar um psicólogo, um serviço de saúde ou, em situação de crise, o CVV pelo 188 — gratuito e disponível 24 horas.