A Lei 15.100, que restringe o uso de celular para fins não pedagógicos nas escolas brasileiras, completou o primeiro ano letivo e ganhou um balanço oficial. O levantamento foi coordenado pela Secretaria de Educação Básica do MEC em parceria com o Inep e o Instituto Alana, com cooperação da Unesco: 8.189 escolas públicas e privadas foram sorteadas em todas as unidades da federação e 2.469 gestores responderam ao questionário entre março e abril de 2026. Os resultados, divulgados no fim de junho, são otimistas. Noventa e dois por cento das escolas já aplicam a lei. Noventa e sete por cento dos gestores dizem que a participação dos estudantes nas atividades pedagógicas aumentou. Oitenta e oito por cento associam a regra à queda de conflitos e de episódios de agressão digital. Oitenta e seis por cento relatam redução de ansiedade.
Meses antes, do outro lado do Atlântico, pesquisadores britânicos publicaram algo bem menos empolgante. O estudo SMART Schools, financiado pelo NIHR (o instituto nacional de pesquisa em saúde do Reino Unido) e publicado na revista The Lancet Regional Health – Europe, comparou 20 escolas inglesas com política restritiva a 10 escolas permissivas. E não perguntou aos diretores o que eles achavam: mediu diretamente nos adolescentes. Resultado: nenhuma diferença de bem-estar mental entre os dois grupos.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Entender por que é mais útil do que torcer por um dos lados.
Quatro perguntas para não se perder entre as manchetes
1. O que exatamente o estudo inglês não encontrou?
O SMART Schools ouviu 1.227 estudantes de 12 a 15 anos e usou a escala WEMWBS, um instrumento padronizado de bem-estar mental. A diferença média ajustada entre escolas restritivas e permissivas foi de -0,48 ponto, com p=0,62 — em linguagem simples, ruído estatístico. Não houve diferença relevante também em sono, atividade física nem desempenho acadêmico.
O que a restrição fez foi mudar o comportamento dentro do prédio. Nas escolas com regra, o uso de celular durante o horário escolar caiu 0,67 hora por dia, cerca de 40 minutos, e o uso de redes sociais caiu 0,54 hora. Números pequenos, mas estatisticamente sólidos. O problema apareceu quando os pesquisadores olharam o dia inteiro: o tempo total de tela dos adolescentes não mudou. Eles simplesmente recuperaram fora da escola o que perderam dentro dela.
2. Então a lei brasileira não serve para nada?
Essa conclusão não se sustenta, e por um motivo metodológico simples: as duas pesquisas mediram coisas diferentes.
O MEC perguntou a gestores sobre convivência escolar, participação em aula, conflitos e clima institucional. São desfechos que a restrição pode afetar diretamente — se o aparelho não está na mão durante o recreio, a chance de uma filmagem constrangedora circular no grupo da turma cai por construção. Já o SMART Schools mediu bem-estar mental global, que depende de família, sono, renda, amizades, escola e um punhado de outras coisas que uma regra de recreio não alcança.
Há também um ponto que o próprio relatório brasileiro não esconde: são percepções de gestores, não medidas nos estudantes. Diretores que se esforçaram para implantar uma política tendem a enxergar o resultado dela com generosidade — é um viés conhecido, não uma acusação de má-fé. O dado é legítimo como retrato de adesão e de clima escolar. Ele não é evidência de efeito sobre saúde mental, e o MEC não afirmou que fosse.
3. Por que tirar 40 minutos de tela não mexeu no ponteiro?
Essa é a pergunta interessante, e ela tem uma resposta razoavelmente clara na literatura. Em comentário publicado na mesma edição da Lancet Regional Health – Europe, Helen Weiss e Chris Bonell, da London School of Hygiene & Tropical Medicine, argumentam que a ausência de efeito "pode se dever em parte ao fato de não ter havido redução do tempo de tela ou do uso de redes sociais no geral, apenas durante o horário escolar".
A implicação prática é desconfortável para quem gosta de solução única: a escola controla uma fração pequena do problema. O adolescente médio passa a maior parte do tempo conectado fora do horário de aula — à noite, no ônibus, na cama.
Weiss e Bonell vão além e apontam para o que consideram os alvos certos: comparação social, uso passivo versus ativo das redes, desenho das plataformas e regulação da indústria. Rolar o feed em silêncio comparando a própria vida com a dos outros e conversar com amigos por mensagem são atividades que aparecem igual no contador de horas do celular e produzem efeitos psicológicos muito diferentes. Contar minutos não distingue as duas.
4. O que sobra para fazer, na prática?
A recomendação central dos autores britânicos não é escolar, é doméstica. Eles pedem "melhor educação e orientação parental sobre como reduzir e melhorar o uso do celular pelos filhos", incluindo mecanismos de controle e conversa sobre segurança online.
Algumas escolhas têm mais lastro do que a contagem de horas:
- Proteger a janela do sono. O horário de dormir é onde o celular compete diretamente com uma função biológica, e sono ruim é um dos caminhos mais consistentes entre uso noturno de tela e piora do humor. Carregador fora do quarto é uma regra chata e eficaz.
- Olhar o conteúdo, não o cronômetro. Uma hora conversando com amigos não equivale a uma hora de comparação social passiva. Vale perguntar o que o adolescente faz no aparelho antes de negociar quanto.
- Desligar notificações, não o aparelho. A interrupção constante é um custo de atenção mensurável e mais fácil de atacar do que o tempo total.
- Combinar com a escola, não terceirizar para ela. O balanço do MEC mostra que a lei pegou: metade das escolas ampliou ações de educação digital e midiática. Isso funciona melhor quando encontra continuidade em casa. Para famílias que estão montando essas regras desde cedo, vale acompanhar o debate sobre criação e telas na primeira infância, onde as escolhas começam antes da fase escolar.
Como ler a próxima manchete sobre tela e saúde mental
Três perguntas resolvem quase tudo. Quem foi medido — os adolescentes ou os adultos que opinam sobre eles? O que foi medido — um comportamento observável ou uma percepção? E o efeito encontrado é sobre uso durante um recorte do dia ou sobre o dia inteiro?
O caso brasileiro e o caso inglês, lidos juntos, contam uma história coerente. Regras escolares funcionam para o que regras escolares alcançam: convivência, atenção em aula, menos conflito no pátio. Elas não são política de saúde mental. Tratá-las como se fossem cria uma expectativa que a evidência não sustenta — e desvia energia de onde o problema realmente mora, que é a noite, o quarto e o desenho das plataformas.
Quando procurar ajuda
Regra de casa não substitui avaliação clínica. Se um adolescente apresenta perda de interesse persistente, isolamento, queda brusca de desempenho, alteração importante de sono ou de apetite, irritabilidade fora do padrão dele, ou fala sobre se machucar, o caminho é procurar um psicólogo, psiquiatra ou a unidade de saúde de referência — e não ajustar o limite de tempo de tela do aparelho. Este texto é informativo e não substitui consulta profissional.