Você já pegou o celular para ver a hora, saiu do aplicativo de relógio e, quatro minutos depois, estava lendo sobre um assunto que não interessa a ninguém que você conhece. Não havia recompensa nenhuma no fim. Nem promoção, nem mensagem importante, nem nada. Ainda assim você foi até lá.
Um estudo publicado em 30 de julho na revista Nature Neuroscience oferece uma peça a mais para entender esse comportamento — e ela é mais estranha do que a explicação habitual. A informação, sozinha, tem valor calculado pelo cérebro. Não como meio para conseguir alguma coisa. Como fim.
O que os pesquisadores fizeram
A pesquisa foi conduzida por Jennifer Bussell, do Zuckerman Institute da Universidade Columbia, no laboratório de Richard Axel, com participação de Ethan Bromberg-Martin, da Johns Hopkins University School of Medicine.
O desenho experimental é simples de entender. Camundongos podiam escolher entre dois buracos:
- um deles avisava se o animal ia receber água, por meio de um cheiro sem nenhum significado prévio (grama cortada, por exemplo);
- o outro não avisava nada, mas a chance de receber água era exatamente a mesma.
Do ponto de vista prático, a escolha é irrelevante: a água chega na mesma proporção nos dois casos. A informação não muda o resultado. Mesmo assim, a grande maioria dos camundongos escolheu o buraco que anunciava o futuro.
Aí veio o teste que dá peso ao achado. Os pesquisadores mudaram as regras para que escolher o buraco informativo reduzisse a quantidade de água recebida. Os animais continuaram escolhendo saber.
"O que vimos foi que esses animais tinham um desejo tão forte de saber sobre eventos futuros que pagavam para receber essa informação", resumiu Bussell.
O achado no cérebro
Enquanto os camundongos aprendiam o jogo, a equipe monitorava simultaneamente grandes populações de neurônios. O alvo foi o córtex orbitofrontal (OFC), região associada à avaliação de valor e à tomada de decisão.
Cerca de 20% dos neurônios de decisão do OFC ajustavam sua taxa de disparo especificamente em resposta à presença e ao valor esperado da informação.
Mais importante: ao variar o volume de água junto com as pistas informativas, os pesquisadores conseguiram separar dois padrões distintos de atividade dentro da mesma região:
- um representando o valor extrínseco — quanta água vem;
- outro representando o valor intrínseco — se haverá informação disponível.
São dois sinais diferentes, no mesmo lugar, computando coisas diferentes. Um mede o prêmio. O outro mede o saber.
A incerteza é o gatilho
Há um dado no estudo que muda a leitura de tudo. A probabilidade de o camundongo buscar a pista informativa aumentava conforme crescia o tempo de espera até a entrega da recompensa.
Quanto maior o intervalo, maior a busca por informação. Isso sustenta a hipótese de que a curiosidade funciona como um mecanismo de redução de incerteza: não se busca o dado, busca-se o fim da espera indefinida.
E como o achado aparece em roedores, a conclusão dos autores é que essa valorização da informação não é um refinamento cognitivo recente de primatas. É um mecanismo antigo, presente em mamíferos que se separaram da nossa linhagem há dezenas de milhões de anos.
O que isso tem a ver com o seu feed
Aqui é preciso um freio de mão, e ele é importante: o estudo não é sobre redes sociais. Foi feito com camundongos, em laboratório, com água e cheiro. Nenhum aplicativo foi testado. Qualquer ponte com o comportamento humano é interpretação, não resultado.
Feita a ressalva, a ponte é difícil de ignorar — porque o desenho dos produtos digitais mais usados do mundo parece feito sob medida para o circuito descrito.
Repare no que o estudo identificou como gatilho: espera de duração incerta antes de um resultado possível. Agora liste os mecanismos que definem um feed moderno:
- recarga infinita, que garante que sempre existe algo não visto adiante;
- atualização imprevisível, em que o intervalo entre uma novidade relevante e outra nunca é fixo;
- notificação sem prévia, que informa que existe informação, sem entregá-la;
- contador de pendências, que sinaliza incerteza pendente sem dizer sobre o quê.
Nenhum desses elementos entrega recompensa. Todos entregam a promessa de reduzir uma incerteza. Se o cérebro atribui valor próprio a essa redução, o produto não precisa ser bom — precisa apenas manter você sem saber.
Isso ajuda a explicar a experiência mais comum e mais desconcertante do uso de celular: rolar por vinte minutos, não encontrar nada de valor e sentir que valeu. Pela lógica do valor extrínseco, não valeu nada. Pela lógica do valor intrínseco da informação, cada item verificado foi uma pequena incerteza fechada.
O que fazer com isso na prática
A conclusão útil não é "tenha mais disciplina". Se a valorização da informação é um mecanismo antigo e automático, apelar para força de vontade é lutar contra circuito com discurso — e o discurso perde.
O caminho mais coerente com o achado é reduzir o número de vezes em que a incerteza é criada, não tentar resistir melhor quando ela aparece:
- Desligue notificações que apenas sinalizam — as que dizem "tem algo" sem dizer o quê são exatamente o formato que o circuito mais valoriza.
- Prefira aplicativos com fim — uma lista que termina fecha a incerteza sozinha; um feed infinito nunca fecha.
- Agrupe as verificações — checar mensagens em três momentos definidos gera três incertezas por dia, não quarenta.
- Tire o aparelho do quarto — a espera de duração incerta é mais potente quando não há nada competindo, e é por isso que a madrugada é o pior horário.
- Repare no momento em que você pega o celular — segundo o próprio estudo, a busca por informação cresce com a espera. Fila, elevador e intervalo são os gatilhos mais previsíveis do seu dia.
Uma curiosidade que não é defeito
Vale terminar pelo lado bom, que o estudo também sustenta. O mesmo circuito que sustenta o scroll automático é o que faz alguém abrir um livro sobre um assunto sem utilidade nenhuma, aprender um instrumento aos 50 anos ou passar uma noite lendo sobre um tema que não vai render dinheiro.
"Uma das grandes alegrias da vida é poder ser curioso sobre tudo ao nosso redor", disse Bussell.
A curiosidade não é o problema. O problema é que ela virou matéria-prima de produtos desenhados para nunca deixá-la se resolver. E, como a psicanálise já observava muito antes da neurociência ter ferramentas para medir, aquilo que nunca se satisfaz por completo é justamente o que mais nos coloca em movimento — vale a pena ler mais sobre o funcionamento do desejo e da falta para entender a outra metade dessa história.
O achado do Zuckerman Institute não diz que estamos condenados. Diz onde o circuito mora e o que o aciona. Saber isso é, ironicamente, a informação que vale a pena buscar.
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